As turbulências do caso Ford Motor Company Brasil

O Brasil não é para amadores! Logo nos primeiros dias de 2021, um ano que promete ser intenso e desafiador, os brasileiros recebem a notícia do encerramento da produção da Ford Motor Company Brasil. A presente discussão se soma a várias outras lançadas no decorrer dos dias após a notícia vir a público, em uma tentativa de entender as nuances dessa estória, uma vez que o setor possui uma cadeia produtiva que movimenta a economia da indústria de base ao setor de prestação de serviço. O fechamento das plantas de Camaçari (BA), Horizonte (CE) e Taubaté (SP) se soma ao fechamento da planta de São Bernardo do Campo (SP), que, por sua vez, teve a produção encerrada ainda em 2019. Podem impactar drasticamente a economia, que já vem sofrendo com o caos provocado pela pandemia da Covid-19, apesar de a pandemia estar entre os motivos do fechamento das fábricas devido ao aumento da capacidade ociosa da indústria e quedas nas vendas.

Suas raízes podem estar no processo de desinvestimento da Ford no Brasil, que começou há seis anos, somando-se ao plano de reestruturação da empresa, que há mais de dois anos adotou uma estratégia global de produção de picapes e SUVs (Sport Utility Vehicle) que, diga-se de passagem, não faziam parte da produção da Ford no Brasil. Com essa estratégia, a Ford visa uma rentabilidade maior, mesmo que para isso ela perca participação no mercado brasileiro. A saída de uma grande montadora do país, que teve o início das suas operações ainda na década de 20, configura-se em mais um capítulo do processo de desindustrialização brasileira. Além de apontar para o difícil processo de articulação entre setor automotivo e o atual governo federal, mesmo o setor sendo importante para o PIB nacional. Mas não foi sempre assim. Ao longo dos cem anos em que a Ford está presente no país, o setor automotivo teve políticas industriais que lhe renderam incentivos fiscais em momentos em que nenhum outro setor dispunha.

Inclusive, a Ford foi beneficiária de aproximadamente 20 bilhões de reais em incentivos fiscais desde 1999, segundo o jornal O Globo. Em contrapartida, instalou a fábrica de Camaçari após uma guerra fiscal entre os governos do Rio Grande do Sul e da Bahia, que rendeu alteração do regime automotivo vigente pelo governo federal para que a Ford fosse beneficiária de incentivos para a região Nordeste. Em um momento em que as montadoras estavam optando por sair do circuito do ABC paulista em busca de incentivos fiscais mais vantajosos e pouca atuação sindical. Dessa forma, a estadia da Ford em Camaçari parecia estar condicionada aos incentivos fiscais, que foram renovados posteriormente pelos governos Lula, Dilma e Temer. Só parecia porque, como podemos observar mesmo com a prorrogação do incentivos da região Nordeste pelo governo Bolsonaro, a Ford resolveu encerrar sua produção em Camaçari. O que traz para o debate, entre outros aspectos, a questão dos incentivos fiscais concedidos às montadoras para que estas tenham sua produção nacionalizada.

Incentivos esses que muitas das vezes estão no bojo das recentes políticas setoriais, Programa de Incentivo à Inovação Tecnológica e Adensamento da Cadeia Produtiva de Veículos Automotores (Inovar-Auto) e Programa de Rota 2030 de Mobilidade e Logística, que condicionam esses incentivos, entre outras coisas, a investimentos em pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias, o que a Ford não está disposta a realizar no Brasil, já que não há garantias de retorno em um momento de incertezas. O setor automotivo defende a existência de uma política setorial que proporcione previsibilidade às empresas para investir pensando no futuro do mercado brasileiro, assim como a existência de incentivos fiscais porque o peso do Custo Brasil, das sucessivas crises pelas quais o país vem passando desde 2014, o câmbio desvalorizado, necessidade de importação de peças e a ociosidade da indústria, elevam o preço do produto final. Somado a tudo isso, parece que existe uma certa falta de articulação do atual governo federal em prol da indústria.

Nem mesmo a atual política, o Rota 2030, parece estar em funcionamento, o que pode postergar os resultados esperados, que vale a pena dizer, foi articulada a partir de pressões do setor, que temia o fim dos incentivos oriundos do Inovar Auto encerrado no final de 2017. Neste sentido, tivemos uma verdadeira corrida contra o tempo para que o Rota 2030 fosse desenvolvido e aprovado até final de 2018, antes do início do governo Bolsonaro. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores temia que todo seu empenho para elaboração para a aprovação da legislação, que regula o Rota 2030, fosse adiada até que a equipe do novo governo tomasse ciência das discussões referentes à política. Isso poderia atrasar as decisões de investimento das empresas no país e, como podemos observar até o momento, não tivemos muitos acenos do governo federal em prol da indústria, quiçá da indústria automotiva.


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