Cluster Automotivo: caminhões, ônibus, carros e relações raciais – um ensaio

Leonardo Ângelo da Silva

Doutor (2019) em História Social pela UFRRJ.

Membro do:

Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho (LEHMT - UFRJ)

(site https://lehmt.org/),

do Grupo de Estudos dos Mundos do Trabalho e Pós-Abolição (GEMTRAPA-UFRRJ),

e da Rede de HistoriadorXs NegrXs (HN)

(Instagram: @historiadorxsnegrxs)



Pesquisei a questão racial, o conceito de desenvolvimentismo e a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) antes de sua privatização. Uma das conclusões a que cheguei, sobre a CSN e Volta Redonda, foi a de que o ideal desenvolvimentista reforçou o mito da democracia racial, pois ao trazer a população negra para o espaço fabril e se vincular a forte discurso e estrutura para a classe trabalhadora, camuflava uma inclusão excludente, pessoas negras eram incluídas na siderurgia ao mesmo tempo que eram excluídas da mobilidade social dentro da empresa. Assim, ao estar próximo de pesquisadores que pensam o Cluster automotivo, em especial os do Grupo de Estudos em Desenvolvimento do Sul Fluminense (GEDESF), a curiosidade em saber sobre a temática racial dentro do Cluster, através de seus trabalhadores e trabalhadoras, se tonou forte.

O Cluster e a CSN possuem contextos diferentes. 2 dos entrevistados migraram da siderurgia para empresas do Cluster e evidenciaram a limpeza, a melhor qualidade da alimentação, o maquinário moderno, o ambiente de trabalho e o maior número de mulheres como diferenças marcantes. As comparações param por aqui, pois a questão desse pequeno texto de blog não é comparações sobre os mencionados espaços de produção e um debater sobre desenvolvimento, aqui, por hora, o foco é se pautar na questão racial e ensaiar uma análise interseccional.

As entrevistas foram realizadas entre os meses de abril e junho de 2021, são 8 mulheres e 8 homens, sendo que 12 trabalham na Volkswagen, 3 na Nissan e um na Stellantis. Apenas dois entrevistados não possuem ensino superior. Sobre a autodeclaração racial: 11 pessoas negras, 5 brancas. As entrevistas trouxeram coisas curiosas que passam pela questão da pandemia, tais como: trabalhadores de escritório estarem em home office (ou se revesando entre este e o trabalho presencial); das pessoas entrevistadas 9 foram contaminadas pela covid e 7 não (o que pode ser reflexo de, em sua maioria, serem de escritório); relato de “salas de oração” no intervalo do turno, tanto para preservar o emprego como para se proteger do vírus e até um relato de translado de trabalhadores em taxi lotado. Mas o que poderia ser apontado como questão comum extraída do roteiro?

Parcela bem pequena dos entrevistados acredita no discurso meritocrático e outra pequena parte não se reconhece como “colaborador”, o curioso é que o discurso meritocrático foi validado majoritariamente por pessoas brancas e a recusa ao termo colaborador por pessoas negras. Outro ponto que coloca a questão racial em evidência é a análise de qualidade de vida. Enquanto pessoas brancas, principalmente as de família imigrante, tendem a achar que a transformação ou melhora da qualidade de vida não foi tão acentuada para a sua geração, pessoas negras reconhecem uma evidente melhoria. Além disso, em muitos momentos e principalmente sobre a formação universitária, ficou claro um esforço coletivo da família negra em “investir” nos mais jovens, revelando “o custo da oportunidade”que não entrou nas estratégias de todos os entrevistados.

Todos os trabalhadores e trabalhadoras mencionam a linha de produção com maior número de pessoas negras e de homens. Sob a percepção deles, a proporção de negros e negras vai diminuindo ao se subir na hierarquia da empresa. Além disso, as mulheres compartilharam maiores estranhamentos: se sentem mais questionadas mesmo quando chefes, por estarem em menor número em cargos executivos e pelas considerações que escutam, tal qual justificar menos mulheres na fábrica pela falta de força física. No mais, pequeno grupo de entrevistadas negras afirmaram que se veem no limite da ascensão possível como mulheres e negras, pois já tentaram promoção e não conseguiram, se acham mais competentes dos que os selecionados, o que vai ao encontro da teoria de “teto de vidro pois evidencia limites que, no caso, se fazem sobre gênero e, para elas, sobre raça. Os estranhamentos deste pequeno grupo vão ao encontro do depoimento de executiva entrevistada, pois ela disse que atualmente, por todo o contexto que as empresas vivem, abarcando ideias do “Princípio de Empoderamento das Mulheres, outras questões identitárias, como a racial, apresentam maior resistência para a implantação.

As universidades têm feito esforço em compreender o perfil dos trabalhadores do setor, há enquentes (surveys) desde 2009 com esse objetivo. Pesquisas usaram e usam esses dados levantados, embora poucas investigações tenham sido realizadas com foco no racial, encontrei apenas uma. Dentro de uma fábrica e talvez nas demais, os dados raciais não possuem “qualidade boa”, segundo palavras de pessoa que tem cargo executivo, pois são dados pautados em autodeclaração e na última tentativa de captá-los houve pouca adesão.

A questão é muito complexa tendo em vista que a região do Cluster se coloca sobre área que no final do século XIX era composta por fazendas de café. Foi comum perceber nos relatos dos entrevistados negros, bisavós em condição de escravizados ou de séria precariedade de vida. Assim, ainda no âmbito das especulações, o quanto o passado, o racismo sentido, ou mesmo, trabalhar em fábrica e ter melhor qualidade de vida, impactam a pessoa negra em seu relato e na vida?

Pra fechar, um “causo”: um dos contatos para a entrevista conversou comigo e estávamos para agendar data, contudo desistiu. Ao entrevistar outras pessoas, notei que elas o conheciam e perguntei sobre, uma delas disse que ele ficou sabendo que eu perguntava sobre raça, cor, essas coisas. O engraçado é que todos que o conhecem e que me concederam entrevistas o veem como negro.

A questão racial, principalmente o racismo no Brasil, ainda é um “segredo público”?

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