Decisões de (des)investimento na indústria automotiva brasileira: o caso Nissan, em Resende (RJ)

Lucas Lemos Walmrath

Doutorando em Ciências Humanas (Sociologia)

pelo Programa de Pós-Graduação

em Sociologia e Antropologia (PPGSA)

da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Pesquisador Associado - BRAIN

Muitos debates importantes sobre a sociedade, a economia e a política perpassam a indústria automotiva. Neste post para o blog do BRAIN discutirei brevemente os achados da minha pesquisa de Mestrado, defendida no mês de março deste ano no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) da UFRJ, e sua relação com um dos assuntos que mais movimentou o noticiário político e econômico nos primeiros meses de 2021: o fechamento de fábricas no Brasil, com destaque para aquelas pertencentes a indústria automotiva.

Neste trabalho me debrucei sobre um dos aspectos mais importantes para se entender os posteriores efeitos desta indústria na sociedade: a tomada de decisão de investimento produtivo das firmas. Mais especificamente, busquei identificar quais são os fatores econômicos e sociopolíticos que ajudam a explicar tais decisões, e porque as empresas decidem por investir na construção de fábricas em certas localidades e não em outras. Em vez de estudar um grande conjunto de empresas, optei por explicar a decisão da montadora japonesa Nissan pela cidade de Resende, localizada no Sul Fluminense. Foi lá que a firma inaugurou sua primeira fábrica de motores e veículos inteiramente sob seu comando, no ano de 2014.

Um leitor/a atento que conheça o Sul Fluminense ou a indústria automotiva brasileira pode se perguntar: o que há de demais na vinda da Nissan para Resende? Afinal, ali já não estavam localizadas as fábricas da Volkswagen Ônibus e Caminhões e, do lado, em Porto Real, a fábrica da Peugeot-Citröen? De fato, se olharmos para a decisão somente pelo contexto econômico favorável da época da decisão do investimento, no ano de 2011, se corre o risco de perder o fio da meada.

Embora fizesse todo sentido econômico, o que falta nessa história é entender como foram as negociações, quais foram os interesses da empresa e como os agentes sociopolíticos agiram para atrair este investimento. O que os resultados de minha pesquisa apontam é que Resende, apesar de suas virtudes (como mão-de-obra especializada, infraestrutura e bom posicionamento logístico), foi apenas uma das cidades consideradas, e nem mesmo a opção prioritária na região.

Para além da viabilidade econômica da cidade e da região, um conjunto de fatores sociopolíticos combinado fez com que a empresa viesse para o Brasil e, uma vez aqui, optasse pelo Rio de Janeiro. Entender que fatores como impostos, relações de poder entre governos e montadoras, alianças políticas e redes de contato da empresa importam é decisivo para explicar as suas escolhas. Eles podem ajudam a explicar também porque elas decidem sair do país.


As decisões de desinvestimento atuais ou “É a economia, estúpido!

O momento atual não é fácil. No estado atual das coisas, é difícil não cair na tentação de associar o mau desempenho da economia com a paralisação da produção e mesmo o desinvestimento de algumas empresas, como a Ford. E é verdade. O que não podemos esquecer, contudo, é que os resultados econômicos de hoje são também resultados das escolhas e trajetórias políticas.

As empresas, diferentemente dos governos, tem como se mover. Elas investem mas também podem desinvestir. Mesmo assim, e apesar do cenário ruim, há motivos para acreditar que muitas das firmas não abandonarão o país, pois estão muito consolidadas e projetam os mercados em longo prazo, especialmente aquelas que historicamente dominam as vendas nacionais (como Chevrolet, FIAT e Volkswagen).

No entanto, tudo isso dependerá das trajetórias que traçaremos em direção ao futuro, isto é, os caminhos que vamos escolher em termos políticos e econômicos, incluindo de imediato aqui o gerenciamento da tragédia humanitária que estamos vivendo no país. O Brasil ter ainda hoje uma grande quantidade de fábricas em grande medida é resultado de escolhas passadas. Os tipos de veículos e a produção que temos, também. Poderíamos ser uma nação somente importadora de veículos? Poderíamos, tal como poderíamos ser um país de vocação exportadora.

Se um dos agentes tem um comportamento mais previsível são as montadoras, guiadas em grande parte pela “racionalidade” econômica típica das empresas; cabe aos governos e a esfera política, portanto, direcionar e escolher os caminhos que se quer trilhar, desenhando políticas que contemplem aquilo que se busca. Emprego e renda? Colocar o Brasil na rota dos novos investimentos elétricos do setor? Tudo isto está em aberto. Mas o tempo está correndo. Suspeito, contudo, ser o desejo de muitos dos mais poderosos e influentes agentes econômicos e políticos que este país apenas importe veículos para as classes econômicas mais abastadas, para as quais pouco interessa a procedência de seu SUV, se importado ou nacional.

Aproveito a deixa e jogo para os amigos e amigas leitores/as: qual futuro da indústria automotiva no Brasil nós queremos? O que podemos fazer quanto a isso? Para saber mais detalhes da pesquisa sobre a vinda da Nissan para Resende e a temática dos investimentos e desinvestimentos confira minhas entrevistas no podcast do BRAIN Entrevista, no Spotify, e a live realizada com o Prof. Dr. Raphael Lima no canal do BRAIN no YouTube.

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