INDÚSTRIA AUTOMOBILÍSTICA, FINANCEIRIZAÇÃO E SOCIOLOGIA ECONÔMICA

Luiz Henrique Cirne de Souza

Mestre em Administração pela Universidade Federal Fluminense, Campus Volta Redonda/ Aterrado, MBA em gestão pública (FDDJ) e graduação em Administração de Empresas (FASP).

Link da dissertação: https://app.uff.br/riuff/handle/1/13226?mode=full


A sociologia econômica confronta a abordagem da ciência econômica tradicional, ela propõe uma análise que vai além do enfoque da eficiência e do resultado. Considerando as relações sociais como fundamentais para compreender os interesses econômicos, a sociologia econômica traz para a discussão às relações de poder, os costumes, as tradições, as estruturas sociais, o mercado, os fatores culturais e as interações existentes entre esses grupos em um determinado ambiente, em busca de alcançar a sobrevivência, a estabilidade e, por fim, um maior crescimento.

Essa área de estudo confronta a lógica de um raciocínio predominantemente econômico, que é presente, mas não é o único existente no mercado. A sociologia econômica considera que as ações econômicas estão imersas nas relações sociais, vindo a refletir todo um contexto social no qual o indivíduo está inserido. Assim, os diferentes fatores passam a ser contemplados por ela, tais como: a política, a cultura, a geografia, a história, as tradições, as interações dos atores econômicos em um mercado e assim por diante.

Nesse sentido, essa disciplina foi a base teórica de minha dissertação, pois ela se insere na abordagem que prioriza os atores envolvidos em interações de mercado. Como exemplo: instituições, o Estado, os blocos econômicos, os conglomerados de empresas e os grupos industriais, etc. Atores estes que muitas vezes são incumbentes, ou seja, aqueles que ditam o ritmo e dinâmica das relações em um mercado.

Esses atores econômicos são capazes de influenciar as estruturas internas das empresas (estratégia, tecnologia e limites físicos) que condicionam todos os seus agentes a se adequarem e se adaptarem ao meio inserido. Todos esses agentes representam a formação de uma estrutura de relações de poder e trazem estabilidade para o sistema sobreviver, a partir do equilíbrio entre as relações existentes e, por consequência, define a concepção de controle dominante.

A partir desse contexto, não se pode desconsiderar a influência que o fenômeno econômico-social chamado “financeirização” vem causando no reposicionamento e deslocamento do eixo produtivo e de consumo do mercado automotivo. Predomina um estereótipo da lógica de valorização do capital via mercado financeiro em detrimento da valorização do capital via fatores de produção. Essa lógica, presente nos mercados pelo mundo, foi fomentada pela presença de um capitalismo globalizado e subjugado ao mundo das finanças.

Essa arquitetura do mercado industrial está condicionada à valorização das ações para o lucro dos acionistas. Tanto os sistemas de gestão como os meios produtivos ficaram condicionados à maximização dos resultados para o acionista, assim como o próprio mercado industrial está condicionado a isso. Ao longo do tempo, os meios de produção foram se submetendo a uma busca de redução de custos, em prol de reduzir e redistribuir, cada vez mais, os recursos para reinvesti-los no mercado financeiro.

Esse contexto favoreceu a busca desenfreada do setor automotiva em conciliar suas agendas industriais e produtivas ao mundo das finanças, a partir de novos acordos de governança. Nesse propósito, criaram diferentes estratégias para o mercado automotivo se adequar a esse fenômeno e, como ações presentes nessas agendas como acordos de governança, podem ser citados, como exemplo: os rearranjos em diferentes conglomerados empresariais, as novas incorporações, ou as fusões, cisões a outras empresas, bem como, a compra e recompra de ações no mercado financeiro. Ações desse tipo são consideradas estratégias de governança em função do fenômeno da financeirização, que incentiva as empresas a buscarem os melhores resultados financeiros para os acionistas e, assim, alavancar o valor do capital.

É válido lembrar que a indústria automotiva teve seu início no século XX com o domínio da produção nos Estados Unidos da América, a partir do Grupo Ford Motor Company, mas foi tomando novos rumos produtivos ao longo dos anos. Nos anos de 1960, montadoras japonesas passaram a ganhar uma fatia significativa desse mercado e, a partir dos anos de 1980, as coreanas entraram na disputa por mercado.

Essa trajetória de expansão mundial da indústria automobilística, posteriormente, sofre uma redefinição quando se constata um rearranjo do campo automotivo pelo mundo. Um exemplo é o grupo Jaguar Land Rover, uma montadora tradicional de alto padrão com carros de luxo que tinha como mercado consumidor tradicional países desenvolvidos, como os da Europa e da América do Norte, sendo adquirida por um grupo não consolidado no mercado automobilístico, originário de um país emergente.

Nesse cenário, situa-se a instalação da primeira unidade da montadora Jaguar Land Rover no Brasil, inaugurada em 2016, na cidade de Itatiaia, estado do Rio de Janeiro. A partir de meu estudo, que teve como objeto de análise a referida montadora, foi possível constatar que este caso é um exemplo que reflete a realidade do mercado automotivo como um todo e como ele está se comportando em função do reposicionamento da indústria automotiva.

Dentro desse contexto, o grupo Jaguar Land Rover (JLR), simboliza as transformações evidenciadas na indústria automobilística, uma vez que esse grupo de origem britânica, consolidado em mercados tradicionais de países desenvolvidos, foi adquirido por uma montadora de origem indiana (Tata Motors Limited), originária de um país emergente. Assim, o grupo é afetado pelas mudanças no setor automotivo e pelos impactos do fenômeno econômico-social definido como financeirização, que se reflete tanto nos mercados quanto nas estruturas das empresas.

Portanto, constata-se um novo momento no mercado automotivo, com a entrada de um grupo de menor representatividade nesse mercado, qual seja, o grupo Tata Motors Limited, até então forte apenas em nível regional, mas que vem adquirindo projeção global. Há inúmeros questionamentos sobre o lugar desse grupo no mercado automotivo como um todo e a minha dissertação ajuda a pensar alguns deles.


Créditos da Imagem: criação sobre imagem nomeada "Dinheiro Carro Trovó Academy", localizada em https://trovoacademy.com/dinheiro/guia-rapido-juntar-dinheiro-carro/dinheiro-carro-trovo-academy/.


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